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Todo Filho Precisa ser Adotado

Para que uma criança cresça e se desenvolva de forma sadia, necessita de um Outro que se ocupe em cuidar dela. Pois ela é sempre prematura ao nascer, quando comparada à outras espécies, que conseguem se virar sozinhos quando vem ao mundo. O “filhote” humano é um ser indefeso, que não tem recursos suficientes para satisfazer suas necessidades vitais e para se constituir como um ser falante.

Por conta disso, será por meio da relação com esse Outro – que ocupará a função de mãe ou de pai – no carinho, nos cuidados e principalmente nas palavras de amor, que ele poderá se desenvolver subjetivamente.

Pois, o “ser humano é psiquicamente um ser de filiação linguística, portanto, de adoção”.

Para que uma criança nasça é preciso que tenha sido desejada (mesmo que a mulher que o gerou não o saiba conscientemente) e em relação a um filho que foi adotado “os pais não podem negar que ele é um filho procurado e longamente desejado por eles, antes da sociedade os ter contentado”.

Uma vez desejada e efetivada a adoção, uma dúvida frequente dos pais é quanto à importância de que o filho conheça sua história, sobre as condições de seu nascimento. Podemos afirmar que é fundamental que ele saiba, pois todo sujeito tem o direito de saber sobre sua origem. As crianças apresentam cedo essa curiosidade: como nasceram, de onde vieram e como foram concebidas. Para dar conta dessas interrogações fazem confabulações para lidar com esse “não saber”, e muitas vezes a falta desses recursos derivados da família, é num processo terapêutico que se constrói.

Diferente do que muitos pais acreditam, elas têm condições de suportarem a verdade, e eles precisam ter condições de dizê-la! É melhor saber a verdade e encontrar, com a ajuda dos pais, condições para elaborar o sabido, do que viver sob o peso de um “segredo” que pode atrapalhar sua existência.

Um homem e uma mulher quando se tornam pais, re-significam o lugar de filhos que eles têm junto aos seus próprios pais. E os sentimentos deles enquanto filhos, são vividos da mesma maneira, independendo se o filho foi ou não gerado por eles.

Pois, é a linguagem que possibilita a inserção de uma criança no desejo dos pais. Quando uma mãe ou um pai diz: “Meu filho”, inscreve o lugar do filho e o deles, enquanto mãe e pai.

A mãe com seus cuidados erogeniza o corpo do filho por meio da alimentação, da troca de fraldas, do banho, e principalmente do olhar e da fala. Ela transforma o corpo orgânico, que ele traz ao nascer, em corpo simbólico, banhado pela linguagem.

Com a palavra desse Outro (mãe ou pai) o filho vai se humanizar. Quando ela interpreta o choro do filho e o devolve como um significante: dizendo “é fome”, “é frio”, “dor” ou “manha”. “O que marca o ritmo do desenvolvimento é o desejo do Outro, que opera sobre a criança através de seu discurso. O maturativo se mantém simplesmente como limite, mas não como causa”.

Será com o investimento desse Outro, que a criança vai poder constituir-se e reconhecer-se como sujeito.

É também por meio do discurso, que eles poderão transmitir o discurso familiar, os dados importantes da cadeia trans-geracional: qual é a história dessa família, quem são os bisavós e avós paternos e maternos, os costumes, as histórias, para que se inscrevam simbolicamente e psiquicamente as marcas no inconsciente desse filho. Dessa forma, ele se reconhecerá fazendo parte dessa família, que é a sua.

E o dito acima, precisa acontecer para todo sujeito humano, pois todo filho precisa ser adotado no desejo e no discurso desses pais, quer tenha ou não sido gerados por eles. Pois se isso não acontecer, ficarão sem lugar de filho, sem lugar na composição familiar e serão somente as crianças, os meninos, e não os filhos, palavra esta que funda um lugar.

Pois quando não existe quem se encarregue da função de mãe e ou pai, não haverá lugar para um filho.

AUTORA PSICÓLOGA JÉSSICA PIAZZA

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